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"A propósito de Eric Hobsbawm"

Eric Hobsbawm consagrou-se como um notável historiador e um extraordinário divulgador do marxismo, esse duplo movimento caracteriza estruturalmente o conjunto da sua obra que foi iniciado em 1959 com a publicação de Rebeldes Primitivos (editora Paz e Terra, 1962) e encerrado em 2011 com a publicação do livro de ensaios Como mudar o mundo – Marx e o Marxismo: 1840-2011 (editora Cia. das Letras, 2011).

A propósito de Eric Hobsbawm (1917-2012)

João Alberto[*]

Eric Hobsbawm consagrou-se como um notável historiador e um extraordinário divulgador do marxismo, esse duplo movimento caracteriza estruturalmente o conjunto da sua obra que foi iniciado em 1959 com a publicação de Rebeldes Primitivos (editora Paz e Terra, 1962) e encerrado em 2011 com a publicação do livro de ensaios Como mudar o mundo – Marx e o Marxismo: 1840-2011 (editora Cia. das Letras, 2011). Aos 95 anos, o historiador britânico ainda em intensa atividade intelectual (preparava um novo livro para publicar em 2013) mantinha-se como marxista e continuava a apostar num mundo socialista. Após o seu falecimento, como avaliar o conjunto da sua obra? Como avaliar o seu legado intelectual?

A historiografia de Hobsbawm tem uma marca emblemática: a perspectiva da totalidade histórica, isto é, o autor organizou livros-síntese cuja natureza explicativa enciclopédica fez dos mesmos trabalhos que atendiam tanto as expectativas dos especialistas como as do grande público. Hobsbawm escrevia livros para serem lidos, foi isso que o notabilizou, qualquer pessoa medianamente informada pode ler os seus livros de História da formação global do capitalismo, principalmente aqueles que o tornaram mundialmente famoso: a trilogia sobre o “longo século 19” – A Era das Revoluções (1789-1848); A Era do Capital (1848-1875) e A Era dos Impérios (1875-1914), seguida depois pelo livro A Era dos Extremos (1914-1991) como uma história do “breve século 20”. Nessas obras o leitor encontra o rigor sistemático da de uma pesquisa historiográfica internacionalizada apresentada em exposição didática organizada com base numa profusão extraordinária de estudos comparados, não se tratam de sínteses abstratas, muito ao contrário, são obras que sintetizam uma quantidade colossal de pesquisas específicas sobre os mais variados assuntos, organizadas na centralidade investigativa do conflito de classes sociais e integrando temas que da história social, história econômica e política impunham-se como interlocutores da história da cultura, em cada um desses livros o leitor encontra um amplíssimo painel histórico do desenvolvimento das contradições mundiais do capitalismo. O mesmo pode ser dito para a monumental História do Marxismo (doze volumes na tradução brasileira publicada pela editora Paz e Terra) que o autor organizou em 1982, na Itália, para a Editora Einaudi. Nessa série a mesma marca enciclopédica, a mesma perspectiva totalizante da grande síntese explicativa formando a mais formidável introdução historiográfica já elaborada às múltiplas tradições do marxismo.

Foi no interior do Partido Comunista da Grã-Bretanha, a partir de 1946, que Hobsbawm definiu a sua carreira como historiador. No partido junto com um grupo de intelectuais que depois se notabilizariam também como alguns dos maiores historiadores do século 20, organizou uma revista, a Past and Present, formando em torno da mesma o grupo dos “historiadores marxistas britânicos”. Hobsbawm junto com Maurice Dobb, Rodney Hilton, Christopher Hill, John Morris, E. P. Thompson entre outros, reformulavam a historiografia inglesa com estudos que do campo da história social sob a perspectiva do conflito de classes ultrapassavam o conservadorismo de uma historiografia política centrada na descrição institucional das elites no poder, com os jovens historiadores marxistas do Partido Comunista a História passou a ser estudada a partir das lutas sociais dos trabalhadores em todas as suas manifestações histórico-culturais. O grupo sofre uma ruptura política profunda em 1956 por causa dos fatos da invasão militar da URSS à Hungria. Hobsbawm e Maurice Dobb apoiam o stalinismo do Partido Comunista britânico (que apoiou a invasão), ao contrário de Thompson, Hill, Hilton, entre outros, que por discordarem radicalmente da política de apoio à URSS abandonam o Partido em 1957. Em pouco tempo os membros desse grupo dissidente haveriam por se consagrar individualmente como autores de alguns dos mais importantes trabalhos historiográficos do século 20 (especialmente E. P. Thompson com o livro A Formação da Classe Operária Inglesa, publicado em três volumes no ano de 1963), consagraram-se como matrizes explicativas originais na investigação historiográfica, esse alcance a obra de Hobsbawm nunca conseguiu formular.

A marca de um Eric Hobsbawm stalinista manteve-se permanentemente associada à sua trajetória por causa desses acontecimentos de 1956, contudo, ainda que apoiasse a experiência histórica do comunismo soviético, era junto ao marxismo de Antonio Gramsci, pensador italiano, um dos grandes renovadores do marxismo no século 20, morto em 1937 pelo fascismo de Mussolini, que o autor definia teoricamente a sua obra.

Eric Hobsbawm continuará a ser lido como um historiador marxista, mas nunca como o formulador de uma teoria historiográfica original, sempre será o notável historiador das grandes sínteses explicativas, o seu legado maior será o de ter construído de maneira incomparável uma obra historiográfica de largo alcance para o grande público.

 



[*] Doutor em História (2005) e professor adjunto na Faculdade de História da UFG.

 

Jornal O Popular, Goiânia, 02/10/2012, p. 07. http://www.opopular.com.br/cmlink/o-popular/editorias/opiniao/opini%C3%A3o-artigo-2-1.146392/a-prop%C3%B3sito-de-eric-hobsbawm-1.213409

Fonte: Jornal "O Popular"